
Parque do Palácio
UM REFÚGIO NATURAL NO CORAÇÃO DE CANELA
Em meio à paisagem urbana de Canela, o Parque do Palácio preserva um dos últimos remanescentes significativos dos Campos de Cima da Serra dentro da cidade. Com cerca de 9 hectares, o espaço reúne dois ecossistemas de grande importância — os Campos de Cima da Serra e a Mata de Araucárias —, além de áreas de vegetação nativa de regeneração lenta e um curso d’água que contribui para a retenção e a absorção das águas da chuva.
Esse patrimônio natural também é um importante refúgio para a fauna silvestre. O parque abriga ou recebe espécies como o papagaio-charão, papagaio-de-peito-roxo, gralha-azul e grimpeiro, aves que desempenham papel fundamental na dispersão dos pinhões, além de servir como corredor para espécies migratórias e registrar avistamentos de animais como o puma.
Mais do que uma área verde, o Parque do Palácio representa um espaço de preservação, educação ambiental, contemplação e convivência com a natureza, mantendo vivo, dentro da cidade, um fragmento da paisagem original da Serra Gaúcha. Em 2025, a área teve sua doação ao Município de Canela oficialmente formalizada, abrindo caminho para novos projetos de lazer, cultura, esporte e educação ambiental.
História
1870 - Os tropeiros
Por volta de 1870, tropeiros em passagem pelo ‘”Campestre Canela” faziam pausa da viagem no arroio denominado “Lava-Pés” (local onde hoje é a Avenida José Luiz Corrêia Pinto, junto ao lago do Parque do Palácio).

1939 - A ideia de uma casa de veraneio em Canela
O então interventor federal no Rio Grande do Sul, General Oswaldo Cordeiro de Farias, manifesta o desejo de construir uma casa de veraneio na Serra Gaúcha. o político costumava passar férias no Grande Hotel, quando Canela ainda era um distrito do município de Taquara. Foi uma iniciativa dele a aquisição do terreno, em 1941. A escolha de Canela estava relacionada ao clima ameno, à paisagem e à vocação turística da região.
1941- O Estado adquire a área
O Governo do Estado adquire da família Corrêa uma propriedade em Canela para a implantação da futura residência de verão dos governadores. A área original tinha aproximadamente 14 hectares, posteriormente integrada ao conjunto que hoje compreende o Palácio das Hortênsias e o Parque do Palácio. A construção, entretanto, é adiada em razão da Segunda Guerra Mundial.
1951- O projeto é retomado
Depois de uma década, o projeto volta a avançar. Uma comissão é formada e reúne autoridades municipais, comerciantes e integrantes da comunidade de Canela, que colaboram para viabilizar a construção da residência através de uma campanha de arrecadação ("Livro-Ouro") liderada pelo então prefeito Dante Bertolucci. O prefeito, essa comissão e o governo do Estado encarregaram-se de adquirir, junto à comunidade canelense, todo o material para a obra, principalmente a madeira, proveniente das diversas serrarias da cidade.
1954 - Inauguração do Palácio das Hortênsias

No dia 17 de abril de 1954 é inaugurada a primeira residência oficial de verão dos governadores do Rio Grande do Sul em Canela, durante o governo de Ernesto Dornelles.
A inauguração foi marcada por um grande churrasco com a presença do governador, autoridades estaduais e municipais e representantes da comunidade. O primeiro edifício era construído em madeira, característica bastante presente na arquitetura da Serra naquele período..
A inauguração
A inauguração, com toda pompa e protocolo, ocorreu num sábado, quando foram abertos os portões aos convidados. Pelos jardins e bosques, ao ar livre, autoridades civis, militares e eclesiásticas, entre outras, foram brindadas com um grande churrasco, assado no local, e oferecido pelo povo canelense.
Entre elas estavam o general Ernesto Dorneles, governador do RS; Theobaldo Newmann, secretário do Interior e Justiça; Mariano Becker, secretário da Educação e Cultura; Antonio Brochado, secretário da Fazenda; e Leonel de Moura Brizola, de Obras Públicas.
1981/1983 - O Solar das Hortênsias
Em 1981 a família Sopher doou o solar, instalado em Porto Alegre. De arquitetura portuguesa, ele foi desmanchado e, após numeradas peça por peça, cuidadosamente remontado.
Como um gigantesco quebra-cabeças, as peças de diversos tamanhos e formas foram sendo encaixadas até sua total reconstrução.

O solar é inaugurado em 1983 e passa a ser a residência oficial de verão dos governadores.
A área verde ao redor permanece preservada e integrada ao conjunto do Palácio.
1989 - I ECO CANELA e a criação da ASSECAN
Canela realiza a primeira edição do ECO-CANELA, iniciativa pioneira de mobilização ambiental no município. O evento coincide com a criação da Associação Ecológica de Canela — ASSECAN, dando início a uma trajetória dedicada à defesa das florestas com araucárias, do patrimônio natural e da educação ambiental.
1992 - Canela, “Capital do Mercosul”

Em fevereiro, Canela sediou um histórico encontro dos presidentes de Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai, com a participação do chanceler do Chile, realizado no contexto da preparação para a Rio-92. O encontro resultou na Declaração de Canela, importante marco da discussão ambiental no processo de integração regional. Na ocasião, Canela recebeu o título simbólico de “Capital do Mercosul”.
Saiba mais - Almanaque de Canela: https://x.gd/q1sk3
1994 - Decreto Estadual nº 35.650/94
Criação do Bosque de Regeneração do Pinheiro Brasileiro no Palácio das Hortênsias.
Por solicitação da ASSECAN, o Governo do Estado do Rio Grande do Sul cria, por meio do Decreto Estadual nº 35.650, o Bosque de Regeneração da Araucária no Palácio das Hortênsias, em Canela. A iniciativa ocorre no mesmo ano em que a entidade promove o seminário As Florestas com Araucárias no RS, reforçando seu pioneirismo na defesa e recuperação desse importante patrimônio natural da Serra Gaúcha.
1999 - Iniciam as tratativas para implantação de um parque público
Com o início das tratativas para transformar parte da área do Palácio das Hortênsias em um parque público, o prefeito José Vellinho Pinto contrata o arquiteto e urbanista Glauco Larre Borges para desenvolver o projeto.
Profissional profundamente ligado à história urbana de Canela, Glauco já havia deixado sua marca no planejamento e na transformação da cidade. Participou de estudos relacionados ao Plano Diretor de Canela, atuou no planejamento do Distrito Industrial do Saiqui e foi responsável por importantes projetos urbanísticos e arquitetônicos, entre eles o Condomínio Quinta da Serra.
Conhecedor da paisagem e da realidade de Canela, Glauco iniciou, ainda no final da década de 1990, os estudos para conceber um novo parque naquele espaço. A proposta procurava aproveitar as características naturais existentes e, ao mesmo tempo, criar condições para que a área pudesse ser usufruída pela comunidade.
2000 - A cessão e o nascimento do Parque
Após anos de reivindicações pelo uso público da área, Governo do Estado e Prefeitura de Canela formalizam, em 3 de março, a cessão de uso de aproximadamente 9 hectares do complexo do Palácio das Hortênsias. Sob a administração do prefeito José Vellinho Pinto, inicia-se o projeto de implantação do projeto entregue por Galuco Larre Borges, com trilhas, áreas de lazer e preservação da vegetação existente. Parte dos recursos para sua implantação seria proveniente da receita turística gerada pelo Parque do Caracol.

2002 - 2 de fevereiro: o Parque do Palácio é aberto à população


Em 2 de fevereiro de 2002, o Parque do Palácio foi oficialmente aberto à comunidade, transformando uma área de 91.203 m² do complexo do Palácio das Hortênsias em um novo espaço público de lazer e convivência em Canela.
Desde o início, a proposta foi oferecer um lugar de acesso gratuito, integrado à natureza, com trilhas para caminhadas e corridas, lagos, áreas de descanso e espaços para piqueniques, em meio à vegetação de campo e aos capões de mata nativa e exótica. O funcionamento inicialmente estabelecido era das 7h às 11h e das 15h às 20h.
A abertura também marcou o início de uma nova relação da comunidade com aquele espaço. O Parque passou a receber atividades voltadas ao bem-estar, à saúde, ao lazer e à educação, aproveitando suas trilhas e áreas abertas para iniciativas comunitárias.
Em abril daquele mesmo ano, cerca de 130 pessoas participaram de uma atividade do projeto Agita Canela, realizada no Parque em parceria com a Academia Espaço Meu e a Prefeitura Municipal. A programação incluiu caminhada, aquecimento e alongamento, com a participação de profissionais de educação física e da área da saúde. Também participaram representantes da Unimed, CORSAN e Projeto Agita Brasil, abordando temas relacionados à importância da atividade física, da alimentação saudável, da prevenção de doenças e da qualidade de vida.
O sucesso da iniciativa levou os organizadores a manifestarem o desejo de realizar novos encontros no local, mostrando, já nos primeiros meses de funcionamento, o potencial do Parque como espaço de encontro, saúde, convivência e integração da comunidade.
Assim, o Parque do Palácio começava sua trajetória não apenas como uma nova área de lazer de Canela, mas como um espaço destinado a aproximar as pessoas da natureza e a promover diferentes formas de bem-estar, educação e vida comunitária.
2003 - Canela assume o compromisso de ser uma EcoCidade
Em 15 de abril de 2003, a Lei Municipal nº 1.968 cria o Sistema Municipal de Desenvolvimento Sustentável de Canela — SIDESCA e o programa Canela Ecocidade, estabelecendo uma estrutura para elaborar, implementar e controlar a política de desenvolvimento sustentável do município.
A iniciativa, construída a partir de um processo iniciado em 2001 com a participação da Prefeitura, do SEBRAE/RS e da comunidade, propunha integrar as dimensões ambiental, social e econômica ao planejamento de Canela. O modelo previa a participação do Poder Público, do Conselho Municipal de Meio Ambiente, do Legislativo, da comunidade e da sociedade civil organizada.
O Parque do Palácio, recém-aberto à comunidade, inseria-se nesse novo momento da cidade: um espaço público de lazer e convivência que também preservava e recuperava áreas de campo e bosque nativos.
2010 - A grande mudança jurídica
31 de agosto de 2010 — Lei Estadual nº 13.506
O Governo do Estado formaliza a transferência do imóvel para o Município de Canela.
A operação, entretanto, tinha uma condição importante: o Município deveria implantar no local um Centro de Convenções e Congressos. Caso a finalidade prevista não fosse cumprida, o imóvel poderia retornar ao patrimônio estadual.
Em 03/11/2010 a Câmara de Vereadores aprova a doação ao município através da Lei Lei Municipal nº 3.048/2010
2011 - Ameaça ao Parque
A apresentação de um projeto para implantação de um grande empreendimento empresarial, tecnológico e hoteleiro na área do Parque do Palácio provoca mobilização da comunidade e resistência de ambientalistas. Nesse contexto, surge o Amigos do Parque, movimento que passa a atuar em defesa da preservação do espaço, contra sua privatização e pela garantia de sua destinação ao lazer e ao uso da comunidade canelense. O projeto não chega a ser executado.

2015 - O Parque é fechado
O Poder Público Municipal fecha o Parque do Palácio, alegando contenção de despesas. A decisão provoca reação da comunidade. A Câmara Municipal registra pedido para sua reabertura, destacando o uso cotidiano do espaço para caminhadas e contemplação.
O coletivo Amigos do Parque do Palácio, acolhido juridicamente pela ASSECAN, com apoio da Fundação Cultural e do MARH, reúne cidadãos e entidades em defesa da manutenção do parque como espaço público de lazer, convivência e preservação.
30/06/2015 — Primeira audiência com o Prefeito
O grupo é recebido pelo Prefeito Constantino Orsolin e entrega ofício solicitando providências para a reabertura e manutenção do Parque.
15/07/2015 — Resposta do Poder Público
A Prefeitura apresenta informações sobre os custos de manutenção do Parque e anuncia a intenção de implantar um Centro Internacional de Eventos na área.
31/07/2015 — Nova audiência
Em nova reunião com o Poder Público, o grupo entrega ofício propondo estratégias para evitar a venda do Palácio das Hortênsias pelo Estado e defender a permanência do patrimônio para uso público.
SETEMBRO–NOVEMBRO/2015 — Mobilização pública
Ampliam-se as manifestações públicas, a mobilização nas redes sociais e a repercussão do tema na imprensa. O movimento Amigos do Parque do Palácio intensifica sua atuação em defesa da permanência do espaço como patrimônio público, área de lazer e preservação ambiental.
2016 - Impasse nas negociações
A troca do Secretário de Turismo interrompe os trabalhos no Parque. A Prefeitura propõe um Termo de Cessão de Uso a Título Precário. O Amigos do Parque apresenta, em contraproposta, um Termo de Cooperação, buscando uma atuação conjunta entre Poder Público e sociedade civil. A proposta não é aceita.
2017 - Reabertura do Parque
Após dois anos fechado, o Parque do Palácio é reaberto à comunidade, em um esforço conjunto entre Prefeitura e Amigos do Parque. Com a continuidade dos problemas de manutenção, o movimento passa a atuar informalmente na conservação e na defesa do espaço, mantendo o Parque aberto ao uso da comunidade.
2018 - Palácio de Ofertas


A Prefeitura de Canela propõe conceder o Parque do Palácio à iniciativa privada por 25 anos, como forma de viabilizar a construção do Centro de Eventos exigido na transferência da área ao Município e garantir sua revitalização e manutenção. Uma empresa interessada apresenta a possibilidade de construir um hotel de 200 apartamentos no local, desencadeando forte reação da comunidade.
Como forma de mobilização e denúncia, é criada a campanha “Palácio de Ofertas”, que utiliza ironicamente a linguagem de uma liquidação para apresentar espécies e elementos naturais do Parque como se estivessem à venda, questionando a transformação de um patrimônio público e ambiental em empreendimento privado.
Após a mobilização da comunidade contra a concessão do Parque à iniciativa privada, o prefeito Constantino Orsolin retira da Câmara o projeto de concessão e estabelece prazo de 120 dias para que os defensores do Parque apresentem uma alternativa concreta, sustentável e que contemple a construção do centro de eventos previsto na legislação de transferência da área.
Em 11 de dezembro de 2018, os Amigos do Parque do Palácio apresentam, em audiência pública, uma proposta alternativa para a manutenção e revitalização do espaço. O projeto previa escolas esportivas, cursos de formação artística, áreas de lazer e anfiteatro coberto, com custo estimado de aproximadamente R$ 1,2 milhão. A proposta indicava ainda fontes possíveis de custeio, incluindo recursos vinculados ao Parque do Caracol, parcerias com empresas, concessões de pequenos serviços e utilização de espaços para eventos:
2023 - Nova proposta para o centro de convenções
Em março de 2023, a Prefeitura apresenta o PLO nº 6/2023, propondo a permuta do Centro de Feiras por área construída, com a finalidade de viabilizar a construção de um Centro de Convenções e Congressos no Parque do Palácio. A proposta foi debatida em audiência pública em 15 de março, com manifestações de entidades e moradores sobre a destinação do Parque.
Em 20 de março de 2023, o Ministério Público recomendou a retirada do projeto enquanto não fossem apresentados elementos técnicos suficientes, incluindo uma avaliação econômica fidedigna do Centro de Feiras e estudo dos impactos do empreendimento. A recomendação também solicitou que a Câmara não votasse o projeto em regime de urgência.
Em 27 de março, o prefeito em exercício Gilberto Cezar protocolou a retirada do PLO nº 6/2023, seguindo a recomendação do MP e após manifestações da população e de entidades dos setores turístico, urbanístico, cultural e ambiental.
Nesse mesmo contexto, os Amigos do Parque reafirmaram a existência do projeto de revitalização elaborado em 2018 e manifestaram disposição para uma gestão compartilhada do Parque entre Poder Público e sociedade civil, envolvendo entidades na gestão cultural e na manutenção do espaço.



























